Saturday, October 13, 2012

Pai

Não havia comentado por aqui ainda, mas minha irmã Lucila está nos Estados Unidos e lá participa dum programa de au pair desde agosto. Cuida de dois meninos - bem independentes, diga-se de passagem - e deve retornar após completar um ano de estadia. Como ninguém de nossa casa jamais se afastou muito, estudou fora ou se divorciou, é a primeira vez que alguém vive longe do "ninho". Apesar dos exatos dois meses já passados, essa distância dela ainda é algo novo para mim. Porém, o que me pegou desprevenido não foi a ausência dela, mas a presença do meu pai.

Meu envolvimento familiar, tirando as festas de fim de ano e algumas comemorações esporádicas, se restringe até hoje ao pessoal de casa. Como eu nasci num "gap" de gerações de primos e não me enturmava com eles por serem mais velhos ou, uns anos depois, muito mais novos, acabei ficando muito amigo apenas da minha irmã - e ambos isolados do restante dos primos e tios por muito tempo. Para completar, até hoje não entendi toda a árvore genealógica construída pelos quatro tios-avôs férteis e por isso ainda não sei qual é exatamente meu grau de parentesco com algumas das senhoras que apareciam em casa para debater as doenças da moda e as vidas alheias. Somando tudo isso entende-se porque me fechei numa bolha com meus pais e minha irmã, mas algo ainda estava um pouco fora de lugar.

Desde muito novo tive muita dificuldade de me comunicar com meu pai. MUITA. Minha timidez era absurda na infância, lembro que em algumas ocasiões eu chegava a ter vergonha de falar com ele. Uma vez, por exemplo, falei com minha mãe para ela conversar com ele porque eu queria ir ao estádio ver um jogo - apenas isso e eu não consegui pedir para ele ir comigo. Com o passar dos anos fiquei mais extrovertido e a relação melhorou, mas teve uma recaída e tornou-se turbulenta na adolescência. Ainda precisei de mais alguns anos para compreender tudo isso: ele, assim como eu, é reservado e taciturno. Não deve ter sido fácil tentar criar laços com uma criança quase incomunicável e tão apegada à sua mãe. 

Alguns anos mais tarde o problema era o oposto, o Fabiano (sim, quase todo mundo o chama pelo sobrenome por ter ele sido um militar) convivia com um jovem com a cabeça cheia de fantasmas para serem exorcisados e pouca paciência para encara-los. Assistir o filme espanhol Biutiful me ajudou a ver que um pai não é um guru ou um sábio com todas as respostas para as questões que uma criança faz ou para as dúvidas mais profundas que a paternidade gera. Longe disso, hoje enxergo como ter filhos é indício apenas de dois sistemas reprodutores funcionais - e como há gente despreparada criando pequenos monstros nesse mundo! Amadurecer e ver o lado dele mudaram muito minha opinião sobre o velho, passei a considera-lo um ótimo pai após pesar as circunstâncias e fatores envolvidos nesta relação.

Javier Bardem no belo e triste Biutiful
Assim continuamos, cada um em seu canto até o começo de 2009. Em fevereiro daquele ano perdemos minha mãe e alguns meses depois fiquei sem emprego. Planejávamos nos mudar da antiga casa em que morávamos e como eu tinha muito tempo livre, o ajudei com esse processo, então começamos a passar bastante tempo juntos e nos aproximamos. Um momento emblemático desse período foi uma viagem feita até Goiás, percorremos cerca de seiscentos quilômetros na ida trocando apenas alguns comentários sobre o trânsito, mas na volta já conseguimos conversar com mais eloquência. Nunca esperei um passe de mágica ou uma daquelas transformações de comportamento mostradas em filme, mas até que conseguimos nos tornar mais amigos nesse período.

De volta à viagem da minha irmã: imaginei como metáfora para a saída dela um cenário em que duas amigas encontram-se num bar com seus respectivos namorados. Num dado momento elas vão juntas ao banheiro e os rapazes, pouco familiarizados um com o outro, ficam constrangidos ao serem deixados sozinhos e buscam de alguma forma puxar assunto para evitar silêncios embaraçosos. Falam sobre o tempo, o mensalão, as eleições municipais, o rebaixamento do Palmeiras, trabalho. Apesar de ainda haver alguns desses momentos em que parecemos estranhos, essas situações de falta de assunto para conversar estão cada vez menos frequentes e meu pai tem se mostrado bem comunicativo também, até arrisca umas piadas aqui e ali. Dentro dos limites da introversão de cada um, já é algo excelente - não tenho ilusões de grandeza como ligações telefônicas de mais de dois minutos, isso já seria extravagância.

Feijoada na Casa Rio (2010?)

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